segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Eu e o mar




Tenho uma ligação com o mar desde pequeno. Sempre gostei de água, sempre gostei de banho, sempre gostei de cheiros, sempre gostei do mar. Por maior que fosse a minha fobia, que tambem vem desde pequeno, com areia da praia, sim, eu gosto do mar, não da areia ... alias, melhor eu gosto de ver o mar. Não intendo muito bem, mas sou tão fascinado pelo mar que as vezes acho que deveria ser igual a esses quadros unicos que vemos em alguns museus, deveriam só ser olhados, não tocados. É como se cada pessoa que nele entra roubasse um pouco da sua essência. Mas ainda assim, eu amo ver o mar. Tirei uma semana para viajar. Tirei uma semana de férias, férias dos meus problemas, férias dos meus desamores, férias dos meus desafetos, férias das minhas dores, tirei férias até de mim mesmo. Ia ser uma semana, só eu e o mar. É sempre bom sair um pouco para poder sentir saudade de como se era. Era uma madrugada de sexta-feira e eu estava arrumando minhas malas, ja estava ansioso para viajar com o mar. Fazia tanto tempo que eu não o via que ja estava sentindo saudades. Finalmente o grande dia chegou e eu ia ver o mar. Acordei cedo, me arrumei, afinal queria estar no meu melhor para o mar me ver. Cheguei, arrumei minhas coisas. Pronto, era só eu e o mar. Eu o mar e mais ninguem. Grande engano meu. Acho que essa obcessão minha por ficar sozinho, por não querer companhia, por querer apenar curtir minhas dores sozinho, por ser egoísta e não deixar ninguem pegar emprestado nem um pouquinho da minha angústia atrai as pessoas. Ninguem me deixa ser sozinho em paz sabia?  Nunca. E la estava eu mais uma vez. Rodeado de pessoas, milhares de pessoas, pessoas que sempre riem demais, que bebem demais, que gritam demais, que falam demais, que são felizes demais ... são tão demais que chegam a me dar vontade de vomitar. Não gosto de nada 'demais'. Demais para mim é sempre algo que sobra. Mas enfim, o mundo todo é demais ultimamente e eu tento fingir que me conformo com isso. E por alguns instantes eu me anestesio com alguma bebida, um liquido verde, um liquido claro, um liquido amarelo. Existem em tantas variadas cores, sabores e doses, mas no fundo, o propósito deles é o mesmo: fazer com que as pessoas esqueçam suas vidinhas mediocres por alguns segundos de prazer liquido e de facil acesso. Pois bem, la estava eu no meio daquela gente que era feliz demais, que bebia demais, e eu tambem, por alguns instante fui feliz demais e bebi demais. Bebi demais até. ( Tá vendo porque eu odeio essa porra do 'demais'? ) Então eu bebi, eu ri, eu conversei, eu parecia até uma pessoa muito feliz para todos que estavam ali em volta, pobres coitados que acreditaram no meu teatro. Não sei porque ainda me surpreendo com quem acredita, é sempre assim, todos sempre acreditam que eu sou feliz, todos sempre acreditam que são felizes. Mas é só o efeito do liquido verde, ou amarelo, ou transparente, ou seja la qual cor for. Todos ali em volta de mim e o unico que eu realmente queria a companhia era o mar. Levantei meio desnorteado, cambaleante. Fui andando, refazendo o caminho que eu acreditava, no estado em que eu estava, ser o caminho mais rapido para que eu pudesse chegar até o mar. O mar que eu esperei tanto tempo para ver de novo. E cheguei, só que ele não estava la. O mar devia ter me abandonado como todos sempre abandonam. É rotineiro ja, mas eu ainda sofro com o abandono. Justamente eu que sempre fui desapegado de tudo e de todos. Mas eu sempre sofro com o abandono e o mar tinha me abandonado. Ele tinha me abandonado como ja tinha feito varias outras vezes. Cinco, se não me falha a memória. Deitei na cama e fiquei olhando o tato, na esperança que uma raxadura aparecesse e o mar começasse a escorrer por entre a fenda, caindo em cima de mim, me afogando, enxendo meus pulmões até não sobrar mais nada, espulsando cada centimetro de ar que existia dentro do meu ser. A sensação pode soar agoniante, mas com o mar tudo vale a pena, e morrer com o mar ia ser a melhor esperiência da minha vida, ou da minha morte, sei lá. Mas eis que o mar entra rompendo o quarto antes escuro, o mar arrebenta a porta,  a luz entra, e a luz nunca tinha sido tão dolorida nos meus olhos. O mar arrebentou a porta trazendo com ele a luz. Não sei o que eles dois faziam juntos, alias, não sei nem porque estavam juntos, eles definitivamente não combinavam. Só sei que eles estavam la. E o que era para ser só eu e o mar, a dupla perfeita, acabou se tornando o meu pior pesadelo. Ou sei la o que aquilo tudo se tornou. O mar mais uma vez tinha me trocado, o mar mais uma vez tinha me abandonado. E eu queria chorar o choro mais dolorido, queria chorar as lagrímas mais salgadas que eu poderia chorar, era o unico jeito de eu sentir pelo menos algo que eu poderia fingir ser o mar perto de mim. Mas nem lagrímas eu tinha mais. Tinha apenas um vazio. Tinha apenas um oco, um vácuo. Som tambem não tinha. Só estalos daquilo que parecia uma lareira em um dia frio. Frio tinha. Parecia ser a noite mais fria do ano. Mas eu não queria escutar os estalos daquela lareira. Por fim a noite chegou e finalmente a luz foi embora. Finalmente. Acho que em toda a minha existência eu nunca tinha odiado tanto a presença de luz no mesmo ambiente que eu estava. Mas o importante é que ela ja não estava mais la. Finalmente era só eu e o mar novamente. Só eu e ele e mais ninguem. E mesmo que alguem estivesse perto, nada mais me importava, só o mar. Como sempre foi. Só o mar me importa. E os dias passaram, e a luz voltou e o mar foi embora mais uma vez. E sempre quando a luz ia embora eu podia ficar um pouco com o mar. O mar sempre me escutou e mar sempre vai estar la quando eu precisar. Acho que é por isso que eu sempre tive uma ligação com o mar. Desde pequeno, na primeira vez que a minha mãe resolveu me levar a praia. Eu podia até não saber o que o mar era. E o mar pode até não ser meu mas eu sou do mar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Caminhão da Mudança


 Finalmente o caminhão da mudança parou em frente ao meu portão. Eu ja tinha escuta ele chegando, escutava a busina, escutava o ruído da carreta, escuta o barulhão que ele fazia a cada curva que ele fazia próximo a minha casa. Mas hoje ele finalmente chegou e parou em frente ao meu portão. A alguns meses eu comecei a encaixotar as minhas coisas, a alguns meses eu me preparo para a mudança. Comecei guardando as coisas mais velhas, aquelas que estavam guardadas no fundo da maioria dos meus baús. E me surpreendi com o tanto de coisa que eu guardava, de épocas que eu ja nem mais lembrava. Achei minhas primeiras lagrimas. Desde pequeno eu guardo minhas lembranças mais doloridas, acho que é para poder experimentar mais um pouco como é morrer de dor só para saber como é bom estar vivo. Achei tambem minhas primeiras alegrias. Essas até que não fizeram tanto volume dentro das caixas da mudança, não sei se é porque eram poucas ou porque eu insisto em diminui-las. Depois abri o baú de fotografias, para poder separar aquelas que eu mais gostava para levar junto comigo. Joguei umas aqui, umas ali, e fiquei um bom tempo olhando estatico para outras. Essas outras me trouxeram memórias que eu guardava no meu baú interno, e esse eu não tinha como me desfazer, nem muito menos selecionar o que eu quero e o que eu não quero. Mas o importante era que eu tinha que me concentrar e continuar guardando as coisas já que em poucos momentos o caminhão da mundança chegava e ele não ia esperar. Guardei algumas fotografias, joguei algumas fora, queimei outras que não me lembravam de mais nada, mas as mais importantes eu coloquei entre alguns documentos da minha carteira. Elas iriam ficar ali como uma espécie de lembrete, e em algum momento inesperado, eu iria abrir minha carteira e ver algum momento bom e lembrar que eu ja tive momentos bons. Depois das fotografias eu comecei a procurar pelas cartas. Peguei aquele bauzinho velho que eu guardo no fundo do meu armário. Sabe aquele bauzinho que todo mundo tem cheio de cartas? Pois é, eu tambem tenho. Peguei ele com uma mão, ele é bem pequeno. E não tinha muitas cartas guardadas não, a maioria eu jogava fora, sempre achei que palavras escritas me prendiam mais que as que me eram ditas. Comecei a olhar, algumas eu só passava o olho e ja jogava fora, outras eu analisava, olhava a forma da letra que fora escrita, olhava as palavras usadas, olhava o real significado das palavras usadas. Guardei apenas uma na caixa que ia ir para o caminhão, as outras, eu joguei fora. Talvez em uma tentativa de uma ruptura de tantas algemas. Por fim, abri o baú com tudo aquilo que eu tinha de mais recente, e esse sim me deu trabalho. Eram memórias, fotografias, cartas, sonhos, amores, tudo, tudo ali, tão fresco e tão novo que pareciam ainda estar acontecendo. E era um baú tão grande que eu demorei dias, semanas, meses até que eu conseguisse separar o que eu iria colocar na caixa do caminhão da mudança. Foram tantas coisas que foram necessárias mais algumas caixas, mas ainda assim deu tempo e consegui guardar tudo a tempo. Bom, hoje finalmente o caminhão parou aqui em frente ao meu portão, buzinou alto e repetidas vezes, afinal o caminhão da mudança não espera. Ele simplesmente chega e manda você guardar tudo o que você tem de mais importante para poder levar. Fui carregando as caixas, uma por uma até o caminhão. Primeiro a caixa que eu tinha guardado as minhas memórias mais antigas, achei melhor começar pela caixa mais leve, assim guardava forças paras as mais pesadas, ja que o caminhão da mudança não vinha com ninguem para me ajudar a carregar tudo o que eu tinha de valor, eu tinha que carregar tudo sozinho. Levei a caixa de fotografias, de cartas e assim por diante, até que chegou a caixa das memórias recentes. Essa foi dificil de colocar na mudança. Ela parecia querer ficar mais um pouco, parecia que ela ainda não era apenas uma memórias, mas sim, um impulso incontrolável pedindo para voltar, mas o caminhão buzinou e eu tive que arrastar a caixa até ele. Quando achei que o serviço mais dificil que eu ja havia feito tinha acabado, lembrei da caixa mais importante. Essa estava em cima da minha cama ha muito tempo. Acho que faz tanto tempo que eu arrumei ela que nem lembrava mais dela. De todas as caixas, essa era a unica que tinha cor. Era vermelha. Eu entrei no quarto e escutei ela se mexendo em cima da minha cama. Dentro daquela caixa tinha os meus maiores valores. Essa caixa, entre as mais importantes, era a mais importante. Nelas não tinha só memórias, tinham sentimentos, tinham lembranças, tinham lágrimas tambem, mas tinha uma quantidade absurda de sorrisos. Tinha tambem um amor enorme, tão grande que quase não cabia dentro da caixa, tive que esmagar tanto amor para caber dentro daquela caixa tão pequena. Antes de leva-la para dentro do caminhão da mudança, eu fiquei um tempo olhando para ela. Cheguei a abraça-la por um tempo, só para sentir o calor que saia dela. Acho que cheguei a adormecer, mas ai o caminhão buzinou e eu tive que coloca-la dentro dele. Com todas as coisas guardadas e em seus devidos lugares, o caminhão partiu. Eu fiquei na calçada, vendo ele dobrar a esquina e sumir com tudo o que tinha de melhor. Vendo ele sumir com o que eu tinha de mais precioso. O caminhão se foi e deixou para trás uma casa vazia, ecoando memórias entre suas paredes. A casa não aguentou por muito tempo e desabou alguns segundos. E eu continuei ali na calçada. Olhando para a esquina onde o caminhão sumiu. Preso entre o que a mudança levou e onde o que a mudança levou era guardado. Eu fico no intervalo, entre o que era e o que poderia ser. Entre o que existe e o que poderia existir. É chegou a hora de ir para a casa nova, esperar o caminhão da mudança chegar, colocar as coisas em seus devidos lugares, abrir as janelas, as portas, o portão, e me acostumar com a nova vizinhança, o novo sol, a nova padaria da esquina ... isso enquanto o caminhão da mudança passa por outras casinhas, mas eu sei que uma hora ele vai parar aqui no portão de casa de novo e vai buzinar como fez da ultima vez. Eu só não sei por quantas vezes mais eu vou conseguir guardar tudo e colocar dentro do caminhão de novo.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Mau-humor crônico


Esse texto tem tudo para ser uma grande merda. Primeiro porque a porra do modem resolveu queimar e eu fiquei sem internet, segundo porque eu perdi boa parte do dia na coisa mais inútil que o ser humano já inventou: a porra do telefone. Perdi boa parte do dia na porra do telefone porque fiquei tentando, desesperado, fazer a internet voltar, mas ai tem a segunda coisa mais inútil que o ser humano já inventou: o operador de telemarketing. Puta que pariu, para que finalidade inventaram essa bosta de profissão, que serve para tudo (deixar alguém irritado principalmente ), menos conseguir resolver os problemas pelos quais você liga para eles para serem solucionados?! E como não tinha internet, fui tentar achar algo que me distraice na televisão, mas no final acabei mais mau-humorado ainda, afinal, quando não se tem nada de mais interessante para assistir nem na tv a cabo o melhor a se fazer é dormir ou ficar coçando o saco na internet, e como eu estava sem sono, não dormi e como estava sem internet fiquei apenas coçando o saco mesmo. E coçar o saco sem por não ter mais nada para fazer me deixou mais mau-humorado ainda. E para pioras mais ainda, eu não te vi a semana inteira. Porra, o mundo quer que eu exploda de mau-humor não?! Então, sentei para ler um livro, aquele da minha escrito predileta, que é mau-humorada, chata, e pessimista, assim como eu também sou. E bem, lendo eu fiquei mais mau-humorado ainda. E meu mau humor só aumenta com cada linha que eu lia. Então, com de costume, eu resolvi escrever para diminuir um pouco o meu mau-humor. Ligo o meu I-Pod no ultimo volume, tranco a porta do meu quarto e espero que o mundo la fora exploda enquanto eu escrevo. Mas escrever também me deixa de mau-humor. E a música alta também me deixa mau-humorado. Mau-humorado e triste. Triste porque a música alta, escrever e até meu próprio mau-humor me lembra você. Mas isso não é nenhuma novidade, afinal, até aquele pseudo-apresentador de pseudo-jornal-investigativo-sensacionalista me lembra você. Não que você seja um pseudo-apresentador de pseudo-jornal-ivestigativo-sensacionalista, é que ele assim como você, mesmo eu não gostando de nada que ele faz, ele ainda assim faz com que eu fiquei assistindo a tarde inteira, e goste de ficar a tarde inteira, aquele porra de pseudo-jornal, com pseudo-noticias importantes. E você também é assim. Eu não gosto de tanta coisa em você, e ainda assim, você consegue fazer com que eu fique o tempo todo, e goste de ficar o tempo todo, pensando sobre o que você esta fazendo e no que você esta pensando. E ele fala alto igual você, melhor, ele não fala, ele grita. Igualzinho você. E você sabe como gente falando alto me deixa de mau-humor. E já que eu falei tanto sobre mau-humor, você talvez tenha sido a única pessoa que realmente conseguiu aturar meu mau-humor, que de tão constante se tornou praticamente crônico. Crônico assim é pensar você, respirar você, viver você, acordar você, mau-humor você, morrer você. E apesar de você ter sido uma das únicas pessoas que estiverem do meu lado enquanto eu estava de mau-humor e sobreviveram para contar a história, você com certeza é um dos meus maiores motivos para ficar de mau-humor. Porque caralho, como eu não ficar irritado com alguém que rouba tanto? Você roubou meus sorrisos, meus sonos tranqüilos, os dias de sol, as músicas de fossa que eu escutava dando risada com você, e o pouco de bom-humor que eu tinha algumas raras vezes durante o mês. Você roubou tudo isso e me deixou só com nada de alegria, um pouco de sorrisos forçados, alguns pesadelos e muito, mais muito mesmo mau-humor. Você com essa sua risada alta, sua barba mal-feita, seu sorriso simples e escancarado, sua boca que eu insisto em dizer ser a oitava maravilha do mundo, seus olhos de criancinha que acabou de ganhar um brinquedo, seus braços fortes que estalam minhas costas quando me abraçam e a sua barriga que me faz pensar em coisas que eu não sabia que existiam, me deixam de mau-humor. E todo esse mau-humor é fruto da árvore que eu e você plantamos. Você semente, caiu em mim terra e nasceu, cresceu, amadureceu, ganhou território, criou raízes e por mais que te cortem na metade, suas raízes continuam em mim. Aos poucos o mau-humor vai diminuindo e eu dou risada de alguma coisa idiota que acontece na novela que eu nem sei do que se trata. E assim, como em todas as outras as vezes, eu me distraio com alguma coisa ou com alguém, porque sem você, nada nem ninguém passa de distração momentânea, e eu vou me distraindo com elas, até que as memórias voltam, a tristeza volta, o mau-humor volta, o único que não volta é você.

domingo, 9 de novembro de 2008

Tudo


Eu não deveria escrever um texto pra você agora porque eu estou bem irritado, mas como eu não vou te ver amanhã e provavelmente também não vou falar com você, então é melhor escrever agora mesmo. Sim, você tem uma lista infindável de defeitos que eu não suporto em uma pessoa. Você é cabeça dura e mesmo você vendo que você ta se ferrando você continua insistindo no que você acha certo. Você é impulsiva demais e não pensa nem um segundo quando alguma idéia vem na sua cabeça e já começa logo a coloca-la em prática. Você toma decisões precipitadas e faz burradas enormes. Você é refém de uma pessoa que todos julgam não te merecer e mesmo assim você não da ouvidos para o que estão dizendo. Você não se importa com o que estão pensando ou falando de você, você é alto-suficiente com as suas idéias, e você não pensa duas vezes antes de se trancar dentro do seu mundinho e querer que o mundo todo la fora se feche. Pois é, você tem todos esses defeitos e mais um monte que eu não ouso nem citar. Mas acho que o real motivo de eu odiar tanto esses seus defeitos, é porque eu me vejo em você, porque eu também sou cabeça dura, impulsivo, tomo decisões precipitadas, sou refém de alguém que todos julgam que não me merece e eu também não me importo com o que os outros pensam ou falam de mim. E é por isso que eu te dou bronca e bato o pé nas suas decisões. Eu sempre, em tudo o que você faz, sempre vejo um pouco de mim fazendo também, é por isso que eu sempre me preocupo tanto com você: cada queda sua, é como se eu estivesse indo e quebrando junto.Mas tem uma coisa que você tem, e muita, que eu não tenho, coragem. Você tem muita coragem correndo nas suas veias. Você da a cara a tapa, você sofre, você cai e se levanta, e eu já não tenho tanta coragem assim. Mas ainda assim, eu vejo em você, um reflexo quase idêntico ao meu. Se isso fosse um jogo com certeza nós estaríamos do mesmo lado. Se isso fosse um filme, nós com certeza seríamos os vilões, mas no nosso filme, o final feliz é nosso. Ah! Esqueci, a gente não acredita em finais-felizes, nem em felizes para sempre. Mas ainda assim, nós sempre terminamos do mesmo lado. Nós brigamos, nós dizemos as verdades que a gente acha que o outro precisa ouvir, nós fazemos pirraça um pro outro e finge que não se conhece, mas no final, a gente sempre volta ao normal, porque, pelo menos pra mim, estranho era quando eu não te conhecia. Eu comecei esse texto com a pretensão de te falar coisas que eu não costumo dizer rotineiramente, porém, apesar de não dizer, eu acredito que você já saiba tudo isso, porque, a nossa ligação é quase telepática, e só de cruzar nossos olhares nós sabemos o que o outro esta pensando. Pode ser que por esse ser o ultimo ano nosso juntos, por ser os últimos dias que vamos dividir nossas manhãs, nós possamos perder um pouco de contato, porém, ainda assim, se tem alguém que marcou a minha história e que me ensinou, como diz a música, ‘Que pra ta junto, não precisa ta perto’ esse alguém foi você. E eu gostei tanto de aprender com você. Porque é até estranho pensar que nós não nos conhecemos desde pequenos, que nós não demos nossos primeiros passos juntos, que tivemos nossas primeiras manias infantis juntos, que não contamos nossos segredos da adolescência desde o comecinho, e que não estamos juntos a tanto tempo. Mas, se tem outra coisa que você me ensinou, foi que tempo não define intensidade, mas sim, a semelhança que define o valor que nós damos a tudo que nós dois conquistamos juntos durante esses poucos anos. Te agradeço por isso. Não vou falar sobre seu aniversário, nem muito menos te desejar felicidades, isso eu já desejo todo dia, hoje não poderia ser diferente. E pra terminar, como uma vez eu te disse: Não se esquece, nem por um segundo, que o nosso amor é o maior do mundo! Eu te amo Gabriely, de verdade.

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Um texto sobre quem eu amo (de verdade)


Faz tempo que eu não escrevo, nem sei se sei mais fazer isso, sabe? Deu pra perceber que eu adoro fazer essas perguntas no meio dos textos, perguntas sem respostas, e que geralmente são colocadas de maneiras tão genéricas que ninguem nunca sabe pra quem eu estou perguntando e o porque de eu estar perguntando. Isso é um problema para mim. Por que não é só aqui, aqui como em tantos outros lugares, minhas perguntas, sempre saem, sem direção e nunca voltam com uma resposta. Minhas perguntas nunca possuem respostas. E o pior é que são tantas perguntas, e são tão mais respostas que chego a pensar que vou morrer e não vou ter descoberto metade do que eu deveria saber quando minha hora aqui acabar. Mas enfim, não quero mais um texto pessimista, nem muito menos com perguntas que não são para ninguem e que nunca recebem uma resposta. Eu dei tanta risada hoje, chorei de rir. E tambem passei um bom tempo falando mal de um monte de gente, não, não tenho vergonha de falar isso. Passei bastante tempo falando mal mesmo, nunca fui daquele tipinho que diz que falar mal de fulano ou beltrana é falsidade, e todos, ao menos uma vez na vida, ja deram uma agulhada em alguem, então poupem-me de sermões sobre falsidade porque todos ja sentaram em cima do rabo para falar de alguem. Comigo não tem essas hipocrisias. Sabe, ando cansado de gente fingindo não ser gente. Essas emoções, ações e sorrisinhos robotizados me incomodam na alma. A intensidade das minhas emoções são tão grandes que acho, e espero, que eu nunca chegue a esse ponto que todos chegaram de conseguir sorrir quando querem chorar e fingir estar bem quando não está. Eu sou transparente demais. Mas começo a entender o que a coordenadora da escola me disse semana passada: 'Nem todos estão preparados para lidar com sinceridade. Transparência demais assusta'. E isso é verdade, antes eu pensava que assustava as pessoas por ser chato demais, por reclamar demais de tudo e todos, por nunca estar satisfeito com nada, por sempre ver e apontar os defeitos alheios, por dar risada de gente caindo na rua, por falar o que eu estava sentindo sem pensar duas vezes, por as vezes deixar de falar mas expressar claramente no meu rosto o que eu estava sentindo, por ser um maluco bipolar, e depois de pensar muito nisso tudo e no que a coordenadora disse ... é por isso mesmo que eu assusto as pessoas. E sinceramente, foda-se! Nunca quis ser o ursinho de pelúcia de ninguem, muito menos quis esconder quem eu era de verdade. Se eu sou assustador igual filme de terror em noite de Sexta-Feira 13, pois então que seja para arrepiar até o ultimo fio de cabelo. E mesmo assim com toda a chatice, as reclamações, as instisfações, com todas as vezes que eu apontei, sem medo, os defeitos de alguem, e por todas as vezes que eu dei risada de alguem caindo na rua, e com toda a bipolaridade, porra, mesmo com tudo isso, eu tenho amigos, amigos de verdade e que me amam mesmo caralho! E se tem alguem gostando é porque em alguma parte a fórmula esta certa. Porra, odiei essa ultima frase, mas mesmo assim vou deixar, esse texto não precisa estar perfeito porque quem esta escrevendo não é perfeito e no fim eu vou poder achar algum defeito, assim como em todas as coisas que eu vejo. Mas voltando aos meus amigos, caralho, com todos os meus defeitos eles me amam. Tem a minha melhor amiga, que eu chamo de insuportável quando não tava mais aguentando ela falar da mesma coisa, e que alguns minutos depois eu ja tava morrendo de rir falando de alguma das idiotices que a gente sempre fala. E tem a minha Vida, que eu chamo de namorada e que tambem é minha melhor amiga, e minha 'mina', e que eu zouo falando que ela pega todo mundo, e que mesmo assim eu amo. E tem tambem o meu melhor amigo, sim, aquele que eu do risada dele, e que fica pedindo sempre pra mim passar alguma música pra fazer aquele tal de rebolation. E tem a outra melhor amiga, a que eu chamo de gorda, que o dente cai toda hora, que peida na sala de aula, que arrota, e mesmo assim, eu amo. E tem a outra melhor amiga, que eu tambem chamo de gorda, que eu reclamo da tintura que ela ta usando no cabelo, que eu reclamo da chapinha mal feita, e que mesmo assim eu amo. E sim, eu tenho muitos 'melhores amigos', além de todos aquelas esquisitices que eu ja falei, eu tambem não gosto de meio termo. Ou é melhor amigo, ou não é amigo. Meu jeito de amar é diferente, eu prefiro não ver o que todos gostam de ver, eu não gosto de pontuar a beleza dos outros, nem muito menos aquilo que agrada todo mundo. Eu tenho atração é pelo feio, pelo obscuro, pelo medo, pelo avesso, pelo torto. Eu gosto de amar as pessoas pelos seus defeitos, porque qualidades todos podem mostrar, mas são pouco os que aceitam seus defeitos. E pra amar os defeitos você tem que ir muito além do que a maioria pode ver. E se eles conseguem me amar, com todas as minhas crises, o meu mau-humor, as minhas reclamações, as minhas risadas histéricas, então eu tambem consigo amar eles com todos os defeitos deles. Eu amo gente, gente de verdade, gente igual eles, que me aguentam nas manhãs mau-humoradas, nas tardes insuportáveis e nas noites de crise. Eu amo os defeitos e as qualidades, mas acima de tudo eu amo eles, porque eles são de verdade, e isso é algo dificil de se encontrar hoje em dia ...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

A Primeira Vez


Hoje pela primeira vez nesses ultimos meses, eu não precisei olhar no espelho enquanto arrumava meu cabelo e ficar repetindo: 'te odeio, te odeio, te odeio'. Hoje isso não foi necessário. Não porque eu esteja te odiando, não, não é isso. É que pela primeira vez nesses ultimos meses eu não lembrei de você quando eu acordei. Eu tambem escutei umas músicas da Ana ontem e nem senti a angustia que eu custumava sentir quando escutava ela começar a cantar. E sabe, pela primeira vez eu estou escrevendo um texto sobre você, mas sem estar sofrendo enquanto eu escrevo. Pela primeira vez eu estou escrevendo experimentando a sensação de estar leve. E sabe, eu tambem estou feliz, e sem nenhum peso no coração ... o que as vezes não é tão bom, afinal, estar leve e feliz e sem pesos no coração sempre me deixa com textos a menos, acho monótono ficar falando da minha alegria. Mas ainda assim algo atrasa um pouco o meu euforismo. Não, não é o fato de você ter se afastado de mim ... eu já me acustumei com a distância, me acustumei até com a falta de sentir falta de você. O que ainda me incomoda é o fato de eu ja não me incomodar. E pior que odiar, é não se importar mais. E pior que ver tanto amor disperdiçado, pior que ver tanto querendo fazer alguem feliz é ver tanto amor morrendo. E essa, com certeza, é a pior parte. E bem, ja faz algum tempo que eu estou tentando terminar esse texto, sinto que as ultimas linhas não acrescentaram nada para a nossa história. Ja pensei em varias frases de efeito para terminar com um final impactante. Ja pensei tambem naquelas frases que você costumava dizer ... aquelas merdas de 'infinito', 'imortalidade' ... enfim, aquele seu blá, blá, blá de sempre que no fundo eu nunca gostei. Mas sinceramente, acho que assim como eu não sei terminar nossa história, eu tambem não consigo terminar esse texto. Então que fique assim, sem razão, sem sentido, sem nada, sem fim.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Dia 29 ja vem.


Eu sei que ainda falta quase um mês pra isso, mas eu, como nos dois ultimos anos, planejo isso a muito tempo, e a inspiração veio agora, por isso, Parabéns. Feliz aniversário, feliz mesmo, afinal, não é todo dia que se faz 18 anos. Te desejo mais pureza, leveza, alegria, risos, inteligência, beleza, bom-humor ... enfim, tudo isso que você já tem tanto que até empresta um pouco pros outros as vezes, porque isso tudo sobra em você, e você sabe que tem muita gente com falta disso tudo que você tem. Mas eu queria mesmo é falar pra você que você me irrita sabe? Você nem deve saber, mas não importa a música que eu coloque pra escutar antes de dormir, é eu ligar o fone, e deitar na cama e ficar alguns minutinhos no escuro meditando sobre o que eu to escutando, que logo me vem uma inspiração absurda, uma vontade enorme de escrever sobre tanta coisa, e eu sei que se eu dormir e esperar pra escrever no outro dia eu não vou lembrar de tudo, então eu levanto e escrevo, exatamente como estou fazendo agora, perdendo horas de sono, e ainda vou acordar cedo porque tem aula daqui a pouco. E sabe, eu te odeio. Odeio assistir o clipe novo da Alanis e ficar pensando em você enquanto eu assisto ela caminhando na praia, com aquele fundo triste com a letra da música igualmente triste. Odeio escutar a música nova da Pink e ver como você fez tudo pra se encaixar exatamente com todas as palavras que ela canta. Talvez a culpa nem seja sua, talvez a culpa seja da Pink ou da Alanis de terem pensando em nós quando estavam escrevendo essas músicas ... é, deve ter sido isso mesmo. Odeio também quando eu to lendo algum texto do Caio, e naquelas infindáveis linhas de uma amargura que eu jamais senti, eu fico pensando em como você tem feito eu me sentir. Tem também os textos da Tati, ela é provavelmente a minha escritora favorita, e os textos dela também são fantásticos, em praticamente todos que eu já li dela, algo se encaixava perfeitamente em você. Eu concerteza já teria te mostrado um monte deles se você parasse de passar por mim com um silêncio digno de uma tumba. E tem aquela hora do dia que é impossível não pensar em você também. É geralmente entre as 4 e as 5 da tarde, sabe porque? Olhando da janela, da pra ver o sol se pondo entre umas árvores e uns prédios, e mesmo olhando aqui de casa, entre prédios, casas e muita poluição, o por-do-sol continuo lindo, lindo igual você continua sendo, mesmo no meio de tanta gente chata, sem graça e irritante que você teima em chamar de seus melhores amigos agora. É, me desculpa por reclamar deles. Mas você sabe como eu sou impulsivo. E eu não gosto mesmo deles. Não gosto, e tenho ciúmes. Ciúmes porque eles estão com você e eu não, e isso já é motivo pra que eu deseje que o chão abra e engula todos eles de uma vez só. Isso mesmo que você ouviu, ou você por acaso já se esqueceu que eu sou extremamente egoísta? E sabe o que é mais estranho? Que apesar de ser egoísta e ciumento, você a única coisa que eu amo que eu deixo solta, sabia? É, eu não te prendo, melhor, eu não consigo te prender, e nem que eu quisesse eu conseguiria, você é livre demais, solto demais, dado demais ... dado demais pro meu gosto. Você é simpático, você consegue falar com todo mundo, coisa que eu não sei fazer, e tenho raiva de você por ser melhor que eu nisso também. Lembra daquele menino que eu falei que conheci? Que te mostrei todo empolgado uma foto dele e você disse que me achava mais lindo que ele? Pois então, ele é mais bonito que você, ele é mais legal que você, ele consegue ser mais simpático que você, ele é mais engraçado que você, o abraço dele é mais apertado que o seu também, mas ele tem um defeito insuportável que eu não consigo deixar passar ... ele não é você. E isso é o pior defeito que uma pessoa pode ter pra mim. Sabe, todo mundo ficou um pouco mais cinza depois de você. Acho que você agravou o meu daltonismo, e hoje eu só consigo enxergar cores em você. Sabe o que eu queria? Queria que você lesse todos os meus textos. Queria que você lesse e pensasse: ‘Caralho, isso tudo é pra mim’. E é mesmo sabia? Os dias que eu digo não querer falar sobre você, não tem texto, não tem inspiração, nem sol tem, sabia? É, eu fiquei meio refém de toda essa história. Mas a Síndrome de Estocolmo me faz esquecer tudo. Agora eu te odeio. Te odeio mesmo. E agora eu sei que você deve ter dado uma risada quando leu essa frase, mas acredite, eu to te odeando mesmo. Eu prometi que eu não ia escrever mais pra você, eu até tinha pensado em umas coisas legais pra escrever, mas assim como em todas as vezes, falar de você encobre todas as outras coisas. Sabe quando o sol de alegria da brilhando no céu e algumas nuvens de uma tristeza cinza encobrem ele? Então, é mais ou menos a mesma coisa que acontece quando eu to dando risada com os meus amigos e você da uma risada mais alto ainda. Sabe, sua risada sufoca a minha. E um eclipse acontece na minha mente toda vez que você ri mais alto. Parece que você esta me dizendo: ‘Olha, você não ta aqui e mesmo assim eu to rindo. Eu sou feliz sem você’. E eu falo baixinho pra mim, só pra mim escutar: ‘Mas eu não to feliz sem você’. Não mesmo, acredite. Não estou infeliz não, mas minha felicidade não esta completa sabe? Sabe aquela sensação de que algo esta faltando? É como se eu tivesse escutando varias pessoas contando as piadas mais engraçadas do mundo e ver todos rindo a minha volta e eu não conseguir achar a mínima graça. É, além das cores, você também deixou as pessoas um pouco menos engraçadas também. Basta. Até você já deve estar cançado de ter tantos textos pra você né? Mas desculpa vai, enquanto você ta ai, enquanto você não quer voltar, enquanto você achar que a gente tem que ficar distante, o maximo que eu posso fazer é ficar escrevendo. Eu já te disse que isso me faz sentir melhor, não falei? Mas agora me bateu uma duvida. Esse que esta escrevendo não sou eu. Eu sou forte normalmente, eu sou intenso, sou pesado e eu não fico me rendendo a toá. E agora eu olhei no espelho e vi um ser tão fraco, desengonçado e sem jeito. Ah! Além das cores e da graça que você tirou dos outros, você também tirou o que eu tinha de melhor em mim, você. Então faça-me o favor, me devolve o que me pertence por direito porque a peça chave da decoração da minha alma se ausentou e eu estou esperando ela voltar. Acho que já devem ter passado milhares de coisas pela sua cabeça enquanto você le tudo o que eu escrevi até aqui, não? Pois tudo o que passou esta errado. Não é nada disso que você ta pensando não. Eu sei, soa estranho, mas sabe, eu sou um pouco estranho mesmo, e eu ainda vejo em você a dose de normalidade que eu preciso pra ser alguém menos diferente ou pelo menos, mais parecida com você. E não me odeia não por escrever tanto, é que eu acho um disperdicio muito grande 2 anos da minha vida serem esquecidos ou jogados fora. E é sincero, é puro de verdade, é puro como poucas coisas que eu faço são puras, mas você faz elas serem puras. Em pensar que eu comecei esse texto pra te desejar um feliz aniversário e te parabenizar, então vamos ao que eu realmente já devia ter falado. Parabéns por ser lindo, parabéns por ser tão inteligente, parabéns por ser quem você é, parabéns por ter feito 18 anos, e isso não se faz todo dia ein? Parabéns também por ter tido paciência comigo, parabéns por gostar de me irritar sem medo das conseqüências, parabéns por ter me aturado por tanto tempo ... mas acima de tudo, parabéns por não ter pensado duas vezes antes de me chutar da sua vida quando eu já não fazia mais diferença. E mesmo não estando mais participando desse teatro enorme que você vive, eu ainda aplaudo essa sua peça de pé, só porque o ator principal é você, e você eu amo mesmo até quando eu não deveria amar.

 

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Mentiras


Eu vou ficar bem quando não estiver mais entre quem eu amo. Eu vou ficar bem quando não passar no vestibular. Eu vou ficar bem quando não poder contar mais meus segredos pros meus amigos. Eu vou ficar bem quando tirar meu violão da capa e afinar as cordas que desafinaram depois de tanto tempo sem tocar. Eu vou ficar bem quando eu estiver sentado escrevendo milhares de linhas sem nenhum sentindo. Eu vou ficar bem quando eu voltar pra casa, caminhando sozinho, como sempre foi. Eu vou ficar bem quando ver que a minha calça preferida não servir mais em mim. Eu vou ficar bem quando uma espinha gigantesca nascer bem no meio da minha testa. Eu vou ficar bem quando eu não achar uma bolacha na dispensa pra poder comer. Eu vou ficar bem quando eu estiver deitado na cama olhado um ponto fixo, simplismente por não ter mais ninguem comigo. Eu vou ficar bem quando estiver totalmente sozinho. Eu vou estar bem quando eu tiver que acordar cedo pra ir pra um trabalho que eu nem sei se eu vou gostar. Eu vou estar bem quando eu acordar na segunda de ressaca. Eu vou estar bem quando eu tiver coragem de experimentar um cigarro. Eu vou estar bem quando não conseguir mais escutar música. Eu vou estar bem quando não sentir mais vontade de levantar e dançar. Eu vou ficar bem quando eu não conseguir aprender mais nada. Eu vou ficar bem quando eu começar a gritar no escuro e ninguem me escutar. Eu vou estar bem chorando em cima da minha cama enquanto escuto alguma música triste. Eu vou estar bem quando quem eu amo ja tiver ido. Eu vou ficar bem quando eu ja não for tão jovem. Eu vou ficar bem quando eu perder o pouco de beleza que ainda me sobre. Eu vou ficar bem quando eu for procurar um chocolate e não achar. Eu vou ficar bem quando eu sentar e olhar minhas cicatrizes. Eu vou ficar bem quando não tiver mais forças pra levantar. Eu vou ficar bem quando não ver o meu sorriso como eu gosto. Eu vou ficar bem sempre que meu reflexo mostra alguem que eu realmente não queria mais ser. Eu vou ficar bem quando eu não conseguir mais sonhar. Eu vou ficar bem quando eu lembrar de tudo o que eu não quero lembrar. Eu vou ficar bem quando o dinheiro acabar. Eu vou ficar bem quando estiver estudando o dia inteiro pra passar na merda da faculdade que eu tanto quero. Eu vou ficar bem quando eu escutar alguem falando mal de mim. Eu vou ficar calmo quando alguem falar mais alto comigo. Eu vou ficar bem quando eu ver que todos esses anos que eu vivi eu não fiz nada que realmente valesse a pena. Eu vou ficar bem quando eu ver que ninguem acredita mais que eu posso conseguir. Eu vou ficar bem quando ninguem mais estiver ao meu lado. Eu vou ficar bem quando eu mesmo não acreditar mais em mim. Eu vou ficar bem quando o ano acabar. Eu vou ficar bem com você ou não. Mas sabe quando eu realmente vou ficar bem? Eu realmente vou ficar bem quando eu deixar de fingir que eu acredito nas minhas mentiras, quando eu deixar de falar que estou bem quando eu na verdade estou morrendo, quando eu deixar de sorrir quando na verdade eu quero realmente chorar sangue, quando eu não sentir mais tanto aperto no meu coração, quando eu deixar de sentir tanta falta de ar ... ou pelo menos, eu vou ficar bem quando eu parar de viver morrendo, pra você morrer vivendo.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Viceral


Tenho me olhado de fora esses ultimos dias. Me analiso.  Checo meus pulmões e noto a arritimia da minha respiração. Depois olho como anda meu coração, e como eu suspeitava, os batimentos andam meio descompassados. A visão anda mais turva que o comum ultimamente. Minhas pernas andam fracas, mal tem sustentado o peso do meu corpo nas horas que eu tento levantar da cama, e depois de muito esforço, elas me sustentam trêmulas. Os braços tambem ja não tem a mesma força. Mau conseguem levantar os talheres, alias, não tenho comido nada, e o gosto amargo na boca tem sido constante. Tenho falado pouco tambem, minha garganta anda bem seca, e as poucas palavras que eu consigo soltar de vez em quando, saem me rasgando. E tem essa febre que não me deixa tambem, e me faz ficar o dia inteiro embaixo do meu cobertor, e mesmo nos dias quentes me faz sentir um frio imenso. Mas o frio que eu ando sentindo é de dentro pra fora, sinto tudo muito gelado aqui dentro. Em cada batida sem ritmo do meu coração eu sinto como se lâminas geladas passassem retalhando minhas veias. Falando em gelo, minhas mãos estão mais geladas que o comum. Meus dedos doem, e é até dificil escrever.  Mas nada disso se compara com as dores de cabeça que eu ando tendo. São fortes, são agudas, são dilacerantes ao ponto de me derrubarem no chão ja que minha pernas, como eu ja disse, mau tem conseguido aguentar meu peso. E no chão eu fico me retorcendo, sentindo uma enorme ânsia, querendo vomitar até a ultima das minhas viceras. A intensidade de tudo tem me matado aos poucos. Eu sei que as dores são coisas da minha cabeça, mas são tão reais que eu chego ao ponto de senti-las de verdade. Hoje eu me perguntei onde foi parar aquela força toda que eu tinha e ja não sei onde esta. Talvez, eu nunca tenha sido realmente forte. Na verdade eu tenha sido mais fraco ainda por acreditar que era forte quando eu não era. Eu tinha medo de sentir dor, mas hoje eu sei que a dor me faz sentir que eu estou realmente vivo. E eu ja acustumei com ela, alias, eu ja absorvo ela. Não dói mais na verdade, tinha ficado tão acustumado a sentir ela todo dia que ja tinha virado custume acreditar que ela ainda existia. Ela é apenas uma lembrança, melhor, é apenas mais uma pra minha coleção de cicatrizes, que você me deixou. Olha, quase consegui escrever um texto inteiro sem falar diretamente sobre você. Mas dessa vez esse 'você' é diferente, não é mais com saudade, com vontade de voltar, com pena de mim, nem suplicando pra você voltar. É apenas um você. Assim como poderia escrever a palavra merda aqui no texto eu tambem posso escrever a palavra você. Pensando bem, os significados pra mim são quase que equivalentes nos dois casos. Aqui dentro existe um vazio enorme, um vácuo. Mas assim como o universo se originou do nada, eu tambem posso reconstruir meu universo do nada que você se tornou.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Falar só por falar.


Talvez seja porque o ano já ta acabando, e com ele as aulas também. A formatura, a viagem ... e isso tudo meio que está ocupando demais minha cabeça e por isso eu esteja conseguindo.

  Talvez seja por causa desse tempo frio que ta fazendo esses últimos dias, e esse tempo me tanto sono, mas tanto sono ... você sabe como eu fico quando o clima ta assim. E eu tenho dormido bastante, e isso também ta me ajudando.

  Talvez seja porque eu tenho conhecido novas pessoas. E essas pessoas tem me feito muito bem. Dividir minhas idéias, contar minhas histórias ... tem relaxado bastante a minha cabeça. Tem até uma garota nova, eu acho ela linda. Nem deu pra te contar sobre ela ... você sabe o porque.

  Talvez seja por causa da Negresco que eu to comendo agora. Você não sabe como eu fiquei viciado nelas nessas ultimas semanas ... e nem tem com você saber né? A gente nunca mais sento pra falar sobre as nossas vidas.

Talvez seja porque eu ja falei tanto de você que os versos estão ficando menores, ja que eu não tenho mais nada de novo pra falar de você, e até eu começo a ficar entediado de escrever só sobre você e como você foi importante.

  Talvez seja por causa da música da Ana que eu to escutando ela cantar agora aqui. Você deve se lembrar de como eu gostava de falar das músicas dela pra você. E nossa, essa música que ta tocando agora é foda, a Ana canta como poucos: ‘Se eu disse que já nem sinto nada? Que a estrada sem você é mais segura. [...] Sinto dizer que amo mesmo, ta ruim pra disfarçar. Entre nós dois não cabe mais nenhum segredo além do que já combinamos. No vão das coisas que a gente disse, não cabe mais sermos somente amigos, e quando eu falo que eu já nem quero, a frase fica do avesso, meio na contra-mão, e quando eu finjo que esqueço, eu não esqueci nada. Não é que eu queira reviver nenhum passado ou revirar um sentimento revirado. Mas todo vez que eu procuro uma saída, acabo entrando sem querer na sua vida’. É, como eu costumava te dizer, ela é foda! Ta vendo porque eu sempre te dizia isso?

  Enfim, os 'porquês' são infinitos pra eu me convencer de tudo. E eu realmente acho que to conseguindo. Esses últimos dias tem sido bem legais, mesmo sem você. Eu até consigo sorrir de verdade ultimamente. Ontem eu passei o dia inteiro sem pensar em você sabia? Juro. Hoje que eu me dei conta disso, me senti vitorioso já. E hoje eu até te escutei falei uma daquelas merdas que você fala, e não senti nada. Nem saudade, nem raiva, nem nada. Acho que o feitiço ta perdendo a força. Acho, e torço muito, pra que finalmente eu esteja conseguindo andar com meus próprios pés e não com os seus. E espero que se eu cai, que eu cai no chão e arrebente a cara bem feio, e não caia mais nesse abismo que tem nome, o teu.

domingo, 5 de outubro de 2008

Queimada


Nós sempre fomos intensos demais. Desde o começo. Nos fomos intensos demais. A gente mal se conheceu e já parecia que nós passamos a vida inteira juntos. Em poucos dias, você já tinha derrubado as barreiras que demorei minha vida inteira construindo ao meu redor. Você mais do que ninguém, soube o quanto eu tinha me resguardado, o quanto eu tinha me distanciado de mim mesmo, eu fiquei tanto tempo distante de mim que já não sabia quem eu era mais, mas isso tudo até você.Até você aparecer, até você chegar.

  E você apareceu, chutando tudo, derrubando portas, muros, me derrubando no chão, passando por cima de mim, me atropelando, renovando tudo o que eu acreditava e o que eu achava que era certo. Você sempre soube fazer isso como ninguém, você me desconcertava, você me fazia me sentir novo a cada sílaba que você dizia.

  E nós conversamos tanto. Você me contava das suas paixões, das suas idéias, dos seus sentimentos, dos seus problemas,  das suas crenças e eu escutava tudo, como sempre, porque eu adorava te escutar falando. Mas mais que te escutar falando sobre tudo isso, eu realmente amava te escutar falando do quanto você me amava. Amava escutar você me chamando de alma gêmea. Era tão intenso tudo aquilo. Intenso e puro. Amava os teus abraços também. Aqueles inesperados quando eu estava distraído com alguma coisa, aqueles que você chegava do nada e me apertava, chegava a estalar os ossos das minhas costas. Parecia que você queria que cada centímetro da tua pele entresse em contato com a minha, e isso era tão bom.

  E melhor ainda, era quando eu estava em mais uma daquelas das minhas crises de mau humor, que eu começa a implicar com você, por qualquer coisa que eu fingia não gostar em você, e no meio das minha implicâncias, você solta um ‘mas mesmo assim eu ainda te amo’ e como isso quebrava as minhas pernas. Puta que pariu, parece que você tinha aprendido em algum lugar que eu queria conhecer, como me deixar sem palavras, logo eu, que sempre falei demais, e sempre tinha uma resposta pra tudo. Mas não pra você, assim como eu nunca tive, eu ainda hoje não tenho uma resposta pra você.

  Mas falar demais cansa, e a gente cansou. Mas ai nós começamos a escrever. Parecíamos aqueles homens das cavernas, que deixavam seus desenhos escrustados nas pedras, pra contar as histórias, as descobertas. Nós escrevíamos, nós colocávamos no papel, o que algumas pessoas não conseguiriam nem com muito esforço dizer cara-a-cara. E nós fazíamos isso com uma facilidade absurda. A gente só precisava de um papel e um lápiz pra poder falar de como era grande o nosso sentimento, ou o quanto a gente confiava um no outro.

  Mas ai, nós cansamos de escrever também. E bem, tudo já havia sido dito, tudo já havia sido escrito, e nós chegamos um ponto que não tinha mais como ir pra cima e então nós começamos a descer. O tempo passou pra mim e levou com ele não só os melhores anos da minha vida, ou a época que eu me senti melhor ... ele levou junto com ele você de mim, e eu hoje eu me vejo tendo ciúmes até da carteira que você senta porque você passa mais tempo perto dela do que de mim.

  E agora, eu estou tentando esquecer o que você me disse, cada palavra. Talvez assim eu consiga me sentir um pouco melhor. Mas quando eu tento esquecer as palavras eu lembro que quem as disse foi você e eu perco a linha e já esqueço quem eu era e o que eu estava tentando fazer. Então eu tento queimar as cartas, as frases, os desenhos, sua letra nos meus cadernos, mas tentar queima-las, me lembra que a sua mão já esteve por ali, e isso já me faz perder as forças e eu já nem consigo acender o fósforo. Então eu deito na cama e fico olhando um ponto fixo no teto, tentando não pensar em nada, mas o nada me lembra você. Melhor, o nada me lembra de mim mesmo. Me lembra de como eu tenho sido nada desde o dia que você me deixou de se importar com a gente.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

As nossas cinzas


Sinceramente, ando meio cansado de só escrever sobre o mesmo assunto. Isso tem me fadigado bastante nos ultimos dias. Mas acho que foi a maneira que eu encontrei, inconscientemente, de tentar cansar a mim mesmo de tudo o que eu ando vivenciando. Sei la, talvez seja essa a unica solução. Cansar a mim mesmo, me destruir até não ter mais nenhum tijolinho em pé, nenhuma estrutura pros ventos que, me atacam de tempos em tempos, poderem derrubar mais. 

Mas não gosto, e nunca gostei de culpar o acaso. Acaso não existe. O ser humano tem o péssimo hábito de culpar o destino, o acaso ou sei la mais o que sobre os seus problemas, numa tentativa imbecial e cega de fingir que não tem culpa de seus problemas. E eu nunca fui assim, sempre procurei os motivos, as soluções, os porquês de tudo. E acho que é isso que mais me intriga ultimamente: não encontrar os porquês.

E ando achando tambem, que não tenho mais neurônios, mais tempo, mais espaço pra ficar procurando os seus motivos. E é quando eu paro de tentar que eu consigo me livrar do que me faz mal. Quando eu paro de tentar exorcisar meus demônios é que eles são expelidos naturalmente, e assim vai ser com você ... eu espero. E sabe porque? Porque eu sempre destruo o que eu amo. Alias, o que eu realmente amo, ainda nem existe.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Se lembra?



Hoje eu acordei e coloquei aquela música da Amy que você tanto odeia. Coloquei ela só pra lembrar da cara de 'nossa, que merda é essa' que você fez na primeira vez que eu te mostrei uma música dela. Fui tomar banho, cantando bem alto, cada palavra da música. 'Love is a losing game ...' eu cantarolo a plenos pulmões de baixo do chuveiro. Canto alto, pra quem sabe assim você me escutar cantando a música que você acha tão chata e eu consiga te incomodar.

  Começo a me trocar, hoje eu escolhi vestir aquela minha camiseta que você gostava, é, aquela mesmo que você disse ter adorado. Aquela que tem um par de asas de anjo atrás. Lembro da primeira vez que você me viu com ela e disse: 'Nossa, finalmente meu anjo tem asas' e eu respondi 'Tenho asas desde o dia que eu te conheci' . Coloquei ela pra ver se você volta a me olhar, com aquela cara que só você sabe fazer. Uma cara meio de criança, meio de safado ... não sei descrever. Só vendo mesmo, pra saber o turbilhão de sensações que me invadem quando você me olha daquele jeito que só você sabe olhar.

  Depois coloquei aquela calça que eu ia usar naquele dia que eu desmarquei o nosso cinema em cima da hora. Coloquei ela pra talvez lembrar da voz que você fez no telefone quando eu disse que não ia mais poder ir. Confesso que aquela voz, apesar de ter soado tão irritada, foi talvez uma das melhores vozes que você ja fez no telefone pra mim. Sua voz me excitava, no sentido sexual tambem, mas mais ainda que isso, ela me fazia me sentir vivo. Por isso que eu sempre pedia pra você me ligar. Sempre adorei ouvir você dizendo 'Alô' com aquele vozerão que você fazia quando queria brincar.

  Hoje eu vo colocar aquela correntinha que eu comprei no mesmo dia que eu comprei a sua. É, aquela que você perdeu não sei aonde e eu fiquei tão irritado quando você me contou. Mas só de lembrar da sua cara quando eu te dei ela, das lágrimas que encheram os teus olhos, do abraço apertado só você sabe dar, e da carinha que você fez depois de colocar ela no pescoço, só essas lembranças ja me fizeram esquecer tudo. Alias, até hoje eu procuro lembrar disso quando eu to com raiva.

  Hoje eu resolvi tira meu violão do armário, arrumar as cordas e tocar uma música. Uma música não, aquela música que a gente tocava. ‘Se lembra daquele dia que a chuva caía e a gente ali? Deitado na barraca ouvindo Blink e NFG [...] E fotografias a gente tirou de momentos que eu não vou mais esquecer, a gente a tarde inteira, olhando a tarde inteira passar’ ... É, eu ainda lembro, e dói de vez em quando ... mas que lembrar me doa, é na lembrança que eu fico bem, lembrando de tudo.

  Hoje eu sentei e fiquei horas escrevendo frases aleatórias, coisas minhas. Sabe, aquelas coisas que você adorava ler quando eu escrevia?. Assim como é impossível não rabiscar um daqueles bonequinhos de Makemefeel e não lembrar de como você gostava deles, da cara de bobo que tu ficava olhando pra eles, ou até mesmo das vezes que eu tentei de ensinar a fazer um.

  É, é das pequenas coisas que eu mais sinto falta. Elas podiam ser pequenas e sem importância pra alguns, mas elas realmente me completavam, e me faziam tão bem. Você me fazia bem. Você me fez acreditar, de verdade, que alguém realmente olhava por mim la de cima, e que esse alguém realmente tinha escolhido você pra ser, como você gostava de dizer: Minha alma gêmea. E eu não posso e não consigo assistir, sem dor, sem chorar, sem tentar fazer alguma coisa, o amor morrer. Eu demorei demais pra acreditar que ele existia de verdade, e hoje estou assistindo sem poder fazer nada, ele morrendo. E pior que isso, é que ele esta levando, o que eu tinha de melhor antes de te encontrar e que eu guardava tão bem guardado pra que eu não precisasse sofrer em vão, e eu te entreguei porque eu sabia, e ainda sei, que você foi a pessoa certa pra que ele fosse entregue de verdade. Meu coração.

sábado, 27 de setembro de 2008

Menino do Coração de Pedra


Nunca me dei muito bem falando. Desde pequeno eu sempre fui muito quieto, nunca falei demais, nunca gritei. Tinha até quem acreditava que eu era um pouco autistas, afinal, não é muito comum uma criança de 5 anos preferir ficar montando quebra-cabeças trancada dentro do quarto, ao invés de brincar no quintal em um dia de sol. Alias, eu nunca gostei de sol. Sempre preferi no escuro ao invés da claridade, a lua ao invés do sol ... Mas enfim, eu estava falando das palavras. Palavras que eu não custumava dizer. Nunca gostei de falar, sempre preferi escutar. Talvez por ser curioso demais, sempre quis saber de tudo, sempre quis provar de tudo. E nisso, eu era igual a todas as crianças da minha idade, mas tambem, só nisso. De resto, eu sempre fui o mais quieto, daqueles que não falavam a aula toda pra não atrapalhar nem levar bronca da professora. Sempre fui o mais obediente, daqueles que faziam todas as tarefas e nunca fez mal-criação pra mãe. Sempre fui o mais introspectivo, daqueles que sentavam sozinhos no intervalo por não ser muito sociavel com as outras crianças.

  O diferente sempre foi uma constante na minha vida. Sempre gostei do que, na maioria das vezes, os outros não gostavam. Nunca gostei de pensar igual todo mundo. Nunca gostei do que todos gostavam. Nunca quis ser como todos eram. Desde pequeno eu sempre fui assim. Quando todos queriam ser um Power Ranger, eu queria ser o Zorro. Quando todos queriam jogar tazzo, eu preferia ler um gibi. Quando todos queriam gostar de rock, eu preferia escutar pagode. Enfim, eu sempre andei na contra-mão de todos que eu conheci. Eu sempre fui o 'do contra', sempre fui o 'diferente' da turma. Não por querer provar nada a ninguem, nunca gostei disso, dessa história de 'ser contra o sistema' ... nas raras vezes que eu quase entrei nessas, foi nessas cegueiras de amor adolescente que a gente tem quando ta com uns 13, 14 anos, mas foram poucas. Mas mesmo nessas raras vezes, eu ainda assim estava obliquo a tudo que era 'cool'. Sempre gostei de ter opnião. Sempre gostei de saber do que eu estava falando. Sempre gostei de defender minhas idéias e meus pontos de vista. Alias, acho que isso que fez com que eu deixasse de ser tão quieto e me fizesse abrir a boca pra falar tudo o que eu sentia.

  Sentir. Foi isso que me fez ficar, como sempre, diferente. Depois de um tempo eu comecei a falar mais. Alias, falar até demais. Sempre fui sincero demais, nunca gostei de mascarar as coisas, nunca gostei de esconder o que estava acontecendo, nunca gostei de findir algo que eu não estava sentindo. Sempre falei tudo na lata, alias, como minha mãe custuma dizer 'Eu abro a boca e deixo o espirito falar'. Por isso talvez eu nunca soube consolar as pessoas. Nunca consegui dizer 'Vai melhorar', simplesmente por saber que não ia melhorar, pelo menos não quando a pessoa ia mais precisar. Nunca soube dizer 'Vai tudo ficar bem', simplesmente por saber que no final nem tudo fica bem. Pelo menos comigo sempre foi assim, sempre fui real demais. Alias, as coisas sempre foram reais demais comigo. Nunca sonhei por muito tempo. Nunca tive amores que duraram mais que alguns beijos. Nunca tive amigos que duraram mais que alguns anos.

  Talvez seja esse o motivo de eu ser tão fechado. Não consigo mais acreditar em amor. Não gosto de acreditar em amor, todos os amores que eu conheci foram sujos, foram fracos, nunca duraram mais que alguns beijinhos, alias, pode até soar que foram muitos, mas não. Como sempre gostei de ser do contra, nunca gostei de sair beijando quem eu via pela minha frente, talvez seja por isso que eu consiga contar nos dedos das duas mãos quantas pessoas eu ja beijei. Todas as amizades que eu tive, nunca duraram mais que alguns anos, as vezes pela minha sinceridade exacerbada, as vezes pela incompetência alheia de aceitar o inevitavel, com suas raras excessões, são poucas as amizades que eu realmente confio. E pouco a pouco eu aprendi a não gostar de gostar de alguem. Aprendi a não confiar na confiança que eu tinha nas pessoas. Aprendi a não amar o amor.

  E tudo isso sempre foi resultado de tanto eu falar. Falar demais. Acho que era por isso que eu era tão quieto quando era pequeno,  naquela época eu sabia que nem todos estavam preparados pra ouvir o que eu tinha pra falar. Mas eu esqueci disso, esqueci que nem tudo o que se sente se fala, nem toda verdade foi feita pra ser dita, assim como nem todo sentimento deveria ter sido sentido. E hoje eu despejo tudo o que eu sinto em algumas estrofes tortas de versos errados. Tortas como sempre foram minha idéias, e errados de como sempre foram meus sentimentos. Porque meu maior pecado sempre vai ser deixar meu coração cair no mar dos meus sentimentos mais intensos, mas sempre me esquecer que ele é de pedra, e sempre ter que assistir, inerte, incapaz, fraco e sem razão, ele se afundar nos meus medos, e no fim, se afogar nos meus próprios erros.