sábado, 27 de setembro de 2008

Menino do Coração de Pedra


Nunca me dei muito bem falando. Desde pequeno eu sempre fui muito quieto, nunca falei demais, nunca gritei. Tinha até quem acreditava que eu era um pouco autistas, afinal, não é muito comum uma criança de 5 anos preferir ficar montando quebra-cabeças trancada dentro do quarto, ao invés de brincar no quintal em um dia de sol. Alias, eu nunca gostei de sol. Sempre preferi no escuro ao invés da claridade, a lua ao invés do sol ... Mas enfim, eu estava falando das palavras. Palavras que eu não custumava dizer. Nunca gostei de falar, sempre preferi escutar. Talvez por ser curioso demais, sempre quis saber de tudo, sempre quis provar de tudo. E nisso, eu era igual a todas as crianças da minha idade, mas tambem, só nisso. De resto, eu sempre fui o mais quieto, daqueles que não falavam a aula toda pra não atrapalhar nem levar bronca da professora. Sempre fui o mais obediente, daqueles que faziam todas as tarefas e nunca fez mal-criação pra mãe. Sempre fui o mais introspectivo, daqueles que sentavam sozinhos no intervalo por não ser muito sociavel com as outras crianças.

  O diferente sempre foi uma constante na minha vida. Sempre gostei do que, na maioria das vezes, os outros não gostavam. Nunca gostei de pensar igual todo mundo. Nunca gostei do que todos gostavam. Nunca quis ser como todos eram. Desde pequeno eu sempre fui assim. Quando todos queriam ser um Power Ranger, eu queria ser o Zorro. Quando todos queriam jogar tazzo, eu preferia ler um gibi. Quando todos queriam gostar de rock, eu preferia escutar pagode. Enfim, eu sempre andei na contra-mão de todos que eu conheci. Eu sempre fui o 'do contra', sempre fui o 'diferente' da turma. Não por querer provar nada a ninguem, nunca gostei disso, dessa história de 'ser contra o sistema' ... nas raras vezes que eu quase entrei nessas, foi nessas cegueiras de amor adolescente que a gente tem quando ta com uns 13, 14 anos, mas foram poucas. Mas mesmo nessas raras vezes, eu ainda assim estava obliquo a tudo que era 'cool'. Sempre gostei de ter opnião. Sempre gostei de saber do que eu estava falando. Sempre gostei de defender minhas idéias e meus pontos de vista. Alias, acho que isso que fez com que eu deixasse de ser tão quieto e me fizesse abrir a boca pra falar tudo o que eu sentia.

  Sentir. Foi isso que me fez ficar, como sempre, diferente. Depois de um tempo eu comecei a falar mais. Alias, falar até demais. Sempre fui sincero demais, nunca gostei de mascarar as coisas, nunca gostei de esconder o que estava acontecendo, nunca gostei de findir algo que eu não estava sentindo. Sempre falei tudo na lata, alias, como minha mãe custuma dizer 'Eu abro a boca e deixo o espirito falar'. Por isso talvez eu nunca soube consolar as pessoas. Nunca consegui dizer 'Vai melhorar', simplesmente por saber que não ia melhorar, pelo menos não quando a pessoa ia mais precisar. Nunca soube dizer 'Vai tudo ficar bem', simplesmente por saber que no final nem tudo fica bem. Pelo menos comigo sempre foi assim, sempre fui real demais. Alias, as coisas sempre foram reais demais comigo. Nunca sonhei por muito tempo. Nunca tive amores que duraram mais que alguns beijos. Nunca tive amigos que duraram mais que alguns anos.

  Talvez seja esse o motivo de eu ser tão fechado. Não consigo mais acreditar em amor. Não gosto de acreditar em amor, todos os amores que eu conheci foram sujos, foram fracos, nunca duraram mais que alguns beijinhos, alias, pode até soar que foram muitos, mas não. Como sempre gostei de ser do contra, nunca gostei de sair beijando quem eu via pela minha frente, talvez seja por isso que eu consiga contar nos dedos das duas mãos quantas pessoas eu ja beijei. Todas as amizades que eu tive, nunca duraram mais que alguns anos, as vezes pela minha sinceridade exacerbada, as vezes pela incompetência alheia de aceitar o inevitavel, com suas raras excessões, são poucas as amizades que eu realmente confio. E pouco a pouco eu aprendi a não gostar de gostar de alguem. Aprendi a não confiar na confiança que eu tinha nas pessoas. Aprendi a não amar o amor.

  E tudo isso sempre foi resultado de tanto eu falar. Falar demais. Acho que era por isso que eu era tão quieto quando era pequeno,  naquela época eu sabia que nem todos estavam preparados pra ouvir o que eu tinha pra falar. Mas eu esqueci disso, esqueci que nem tudo o que se sente se fala, nem toda verdade foi feita pra ser dita, assim como nem todo sentimento deveria ter sido sentido. E hoje eu despejo tudo o que eu sinto em algumas estrofes tortas de versos errados. Tortas como sempre foram minha idéias, e errados de como sempre foram meus sentimentos. Porque meu maior pecado sempre vai ser deixar meu coração cair no mar dos meus sentimentos mais intensos, mas sempre me esquecer que ele é de pedra, e sempre ter que assistir, inerte, incapaz, fraco e sem razão, ele se afundar nos meus medos, e no fim, se afogar nos meus próprios erros.