segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Eu e o mar




Tenho uma ligação com o mar desde pequeno. Sempre gostei de água, sempre gostei de banho, sempre gostei de cheiros, sempre gostei do mar. Por maior que fosse a minha fobia, que tambem vem desde pequeno, com areia da praia, sim, eu gosto do mar, não da areia ... alias, melhor eu gosto de ver o mar. Não intendo muito bem, mas sou tão fascinado pelo mar que as vezes acho que deveria ser igual a esses quadros unicos que vemos em alguns museus, deveriam só ser olhados, não tocados. É como se cada pessoa que nele entra roubasse um pouco da sua essência. Mas ainda assim, eu amo ver o mar. Tirei uma semana para viajar. Tirei uma semana de férias, férias dos meus problemas, férias dos meus desamores, férias dos meus desafetos, férias das minhas dores, tirei férias até de mim mesmo. Ia ser uma semana, só eu e o mar. É sempre bom sair um pouco para poder sentir saudade de como se era. Era uma madrugada de sexta-feira e eu estava arrumando minhas malas, ja estava ansioso para viajar com o mar. Fazia tanto tempo que eu não o via que ja estava sentindo saudades. Finalmente o grande dia chegou e eu ia ver o mar. Acordei cedo, me arrumei, afinal queria estar no meu melhor para o mar me ver. Cheguei, arrumei minhas coisas. Pronto, era só eu e o mar. Eu o mar e mais ninguem. Grande engano meu. Acho que essa obcessão minha por ficar sozinho, por não querer companhia, por querer apenar curtir minhas dores sozinho, por ser egoísta e não deixar ninguem pegar emprestado nem um pouquinho da minha angústia atrai as pessoas. Ninguem me deixa ser sozinho em paz sabia?  Nunca. E la estava eu mais uma vez. Rodeado de pessoas, milhares de pessoas, pessoas que sempre riem demais, que bebem demais, que gritam demais, que falam demais, que são felizes demais ... são tão demais que chegam a me dar vontade de vomitar. Não gosto de nada 'demais'. Demais para mim é sempre algo que sobra. Mas enfim, o mundo todo é demais ultimamente e eu tento fingir que me conformo com isso. E por alguns instantes eu me anestesio com alguma bebida, um liquido verde, um liquido claro, um liquido amarelo. Existem em tantas variadas cores, sabores e doses, mas no fundo, o propósito deles é o mesmo: fazer com que as pessoas esqueçam suas vidinhas mediocres por alguns segundos de prazer liquido e de facil acesso. Pois bem, la estava eu no meio daquela gente que era feliz demais, que bebia demais, e eu tambem, por alguns instante fui feliz demais e bebi demais. Bebi demais até. ( Tá vendo porque eu odeio essa porra do 'demais'? ) Então eu bebi, eu ri, eu conversei, eu parecia até uma pessoa muito feliz para todos que estavam ali em volta, pobres coitados que acreditaram no meu teatro. Não sei porque ainda me surpreendo com quem acredita, é sempre assim, todos sempre acreditam que eu sou feliz, todos sempre acreditam que são felizes. Mas é só o efeito do liquido verde, ou amarelo, ou transparente, ou seja la qual cor for. Todos ali em volta de mim e o unico que eu realmente queria a companhia era o mar. Levantei meio desnorteado, cambaleante. Fui andando, refazendo o caminho que eu acreditava, no estado em que eu estava, ser o caminho mais rapido para que eu pudesse chegar até o mar. O mar que eu esperei tanto tempo para ver de novo. E cheguei, só que ele não estava la. O mar devia ter me abandonado como todos sempre abandonam. É rotineiro ja, mas eu ainda sofro com o abandono. Justamente eu que sempre fui desapegado de tudo e de todos. Mas eu sempre sofro com o abandono e o mar tinha me abandonado. Ele tinha me abandonado como ja tinha feito varias outras vezes. Cinco, se não me falha a memória. Deitei na cama e fiquei olhando o tato, na esperança que uma raxadura aparecesse e o mar começasse a escorrer por entre a fenda, caindo em cima de mim, me afogando, enxendo meus pulmões até não sobrar mais nada, espulsando cada centimetro de ar que existia dentro do meu ser. A sensação pode soar agoniante, mas com o mar tudo vale a pena, e morrer com o mar ia ser a melhor esperiência da minha vida, ou da minha morte, sei lá. Mas eis que o mar entra rompendo o quarto antes escuro, o mar arrebenta a porta,  a luz entra, e a luz nunca tinha sido tão dolorida nos meus olhos. O mar arrebentou a porta trazendo com ele a luz. Não sei o que eles dois faziam juntos, alias, não sei nem porque estavam juntos, eles definitivamente não combinavam. Só sei que eles estavam la. E o que era para ser só eu e o mar, a dupla perfeita, acabou se tornando o meu pior pesadelo. Ou sei la o que aquilo tudo se tornou. O mar mais uma vez tinha me trocado, o mar mais uma vez tinha me abandonado. E eu queria chorar o choro mais dolorido, queria chorar as lagrímas mais salgadas que eu poderia chorar, era o unico jeito de eu sentir pelo menos algo que eu poderia fingir ser o mar perto de mim. Mas nem lagrímas eu tinha mais. Tinha apenas um vazio. Tinha apenas um oco, um vácuo. Som tambem não tinha. Só estalos daquilo que parecia uma lareira em um dia frio. Frio tinha. Parecia ser a noite mais fria do ano. Mas eu não queria escutar os estalos daquela lareira. Por fim a noite chegou e finalmente a luz foi embora. Finalmente. Acho que em toda a minha existência eu nunca tinha odiado tanto a presença de luz no mesmo ambiente que eu estava. Mas o importante é que ela ja não estava mais la. Finalmente era só eu e o mar novamente. Só eu e ele e mais ninguem. E mesmo que alguem estivesse perto, nada mais me importava, só o mar. Como sempre foi. Só o mar me importa. E os dias passaram, e a luz voltou e o mar foi embora mais uma vez. E sempre quando a luz ia embora eu podia ficar um pouco com o mar. O mar sempre me escutou e mar sempre vai estar la quando eu precisar. Acho que é por isso que eu sempre tive uma ligação com o mar. Desde pequeno, na primeira vez que a minha mãe resolveu me levar a praia. Eu podia até não saber o que o mar era. E o mar pode até não ser meu mas eu sou do mar.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Caminhão da Mudança


 Finalmente o caminhão da mudança parou em frente ao meu portão. Eu ja tinha escuta ele chegando, escutava a busina, escutava o ruído da carreta, escuta o barulhão que ele fazia a cada curva que ele fazia próximo a minha casa. Mas hoje ele finalmente chegou e parou em frente ao meu portão. A alguns meses eu comecei a encaixotar as minhas coisas, a alguns meses eu me preparo para a mudança. Comecei guardando as coisas mais velhas, aquelas que estavam guardadas no fundo da maioria dos meus baús. E me surpreendi com o tanto de coisa que eu guardava, de épocas que eu ja nem mais lembrava. Achei minhas primeiras lagrimas. Desde pequeno eu guardo minhas lembranças mais doloridas, acho que é para poder experimentar mais um pouco como é morrer de dor só para saber como é bom estar vivo. Achei tambem minhas primeiras alegrias. Essas até que não fizeram tanto volume dentro das caixas da mudança, não sei se é porque eram poucas ou porque eu insisto em diminui-las. Depois abri o baú de fotografias, para poder separar aquelas que eu mais gostava para levar junto comigo. Joguei umas aqui, umas ali, e fiquei um bom tempo olhando estatico para outras. Essas outras me trouxeram memórias que eu guardava no meu baú interno, e esse eu não tinha como me desfazer, nem muito menos selecionar o que eu quero e o que eu não quero. Mas o importante era que eu tinha que me concentrar e continuar guardando as coisas já que em poucos momentos o caminhão da mundança chegava e ele não ia esperar. Guardei algumas fotografias, joguei algumas fora, queimei outras que não me lembravam de mais nada, mas as mais importantes eu coloquei entre alguns documentos da minha carteira. Elas iriam ficar ali como uma espécie de lembrete, e em algum momento inesperado, eu iria abrir minha carteira e ver algum momento bom e lembrar que eu ja tive momentos bons. Depois das fotografias eu comecei a procurar pelas cartas. Peguei aquele bauzinho velho que eu guardo no fundo do meu armário. Sabe aquele bauzinho que todo mundo tem cheio de cartas? Pois é, eu tambem tenho. Peguei ele com uma mão, ele é bem pequeno. E não tinha muitas cartas guardadas não, a maioria eu jogava fora, sempre achei que palavras escritas me prendiam mais que as que me eram ditas. Comecei a olhar, algumas eu só passava o olho e ja jogava fora, outras eu analisava, olhava a forma da letra que fora escrita, olhava as palavras usadas, olhava o real significado das palavras usadas. Guardei apenas uma na caixa que ia ir para o caminhão, as outras, eu joguei fora. Talvez em uma tentativa de uma ruptura de tantas algemas. Por fim, abri o baú com tudo aquilo que eu tinha de mais recente, e esse sim me deu trabalho. Eram memórias, fotografias, cartas, sonhos, amores, tudo, tudo ali, tão fresco e tão novo que pareciam ainda estar acontecendo. E era um baú tão grande que eu demorei dias, semanas, meses até que eu conseguisse separar o que eu iria colocar na caixa do caminhão da mudança. Foram tantas coisas que foram necessárias mais algumas caixas, mas ainda assim deu tempo e consegui guardar tudo a tempo. Bom, hoje finalmente o caminhão parou aqui em frente ao meu portão, buzinou alto e repetidas vezes, afinal o caminhão da mudança não espera. Ele simplesmente chega e manda você guardar tudo o que você tem de mais importante para poder levar. Fui carregando as caixas, uma por uma até o caminhão. Primeiro a caixa que eu tinha guardado as minhas memórias mais antigas, achei melhor começar pela caixa mais leve, assim guardava forças paras as mais pesadas, ja que o caminhão da mudança não vinha com ninguem para me ajudar a carregar tudo o que eu tinha de valor, eu tinha que carregar tudo sozinho. Levei a caixa de fotografias, de cartas e assim por diante, até que chegou a caixa das memórias recentes. Essa foi dificil de colocar na mudança. Ela parecia querer ficar mais um pouco, parecia que ela ainda não era apenas uma memórias, mas sim, um impulso incontrolável pedindo para voltar, mas o caminhão buzinou e eu tive que arrastar a caixa até ele. Quando achei que o serviço mais dificil que eu ja havia feito tinha acabado, lembrei da caixa mais importante. Essa estava em cima da minha cama ha muito tempo. Acho que faz tanto tempo que eu arrumei ela que nem lembrava mais dela. De todas as caixas, essa era a unica que tinha cor. Era vermelha. Eu entrei no quarto e escutei ela se mexendo em cima da minha cama. Dentro daquela caixa tinha os meus maiores valores. Essa caixa, entre as mais importantes, era a mais importante. Nelas não tinha só memórias, tinham sentimentos, tinham lembranças, tinham lágrimas tambem, mas tinha uma quantidade absurda de sorrisos. Tinha tambem um amor enorme, tão grande que quase não cabia dentro da caixa, tive que esmagar tanto amor para caber dentro daquela caixa tão pequena. Antes de leva-la para dentro do caminhão da mudança, eu fiquei um tempo olhando para ela. Cheguei a abraça-la por um tempo, só para sentir o calor que saia dela. Acho que cheguei a adormecer, mas ai o caminhão buzinou e eu tive que coloca-la dentro dele. Com todas as coisas guardadas e em seus devidos lugares, o caminhão partiu. Eu fiquei na calçada, vendo ele dobrar a esquina e sumir com tudo o que tinha de melhor. Vendo ele sumir com o que eu tinha de mais precioso. O caminhão se foi e deixou para trás uma casa vazia, ecoando memórias entre suas paredes. A casa não aguentou por muito tempo e desabou alguns segundos. E eu continuei ali na calçada. Olhando para a esquina onde o caminhão sumiu. Preso entre o que a mudança levou e onde o que a mudança levou era guardado. Eu fico no intervalo, entre o que era e o que poderia ser. Entre o que existe e o que poderia existir. É chegou a hora de ir para a casa nova, esperar o caminhão da mudança chegar, colocar as coisas em seus devidos lugares, abrir as janelas, as portas, o portão, e me acostumar com a nova vizinhança, o novo sol, a nova padaria da esquina ... isso enquanto o caminhão da mudança passa por outras casinhas, mas eu sei que uma hora ele vai parar aqui no portão de casa de novo e vai buzinar como fez da ultima vez. Eu só não sei por quantas vezes mais eu vou conseguir guardar tudo e colocar dentro do caminhão de novo.