segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Ficando

Estou no período mais perigoso do ano pra mim. Não, não é perigoso como pra um monte de gente que passa o ano inteiro economizando cada centavo pra chegar no final do ano e ir gastar as economias de um ano inteiro em presentes na 25 de Março. Se é que da pra dizer que o que vende la pode ser chamado de presente. Não é por causa disso que essa época do ano é perigosa pra mim, não, mesmo eu querendo gastar muito mais do que eu deveria pra ir no show de uma cantora que provavelmente nem vai me notar no meio de uma multidão de pessoas se estapiando pra conseguir chamar a atenção dela de alguma maneira, nem que pra isso seja necessário enfiar um pisca-pisca no rabo. Tenho um amigo que anda com um pisca-pisca no rabo, não literalmente, mas você entendeu o que eu disse. Mas o que eu quero dizer mesmo é que essa época do ano é perigosa pra mim e imagino que seja perigosa pra mais um monte de gente como eu. Gente que vive de dentro pra fora. Gente que só compreende o que tem internamente e acha que tudo do lado de fora é uma desordem sem tamanho. E é nessa época do ano que a desordem atinge seu pico. As pessoas esquecem do limite do cartão de crédito até o limite do bom senso. Meu pai resolveu me levar pra ver as luzes da Paulista em plena madrugada de sabado. Quando o que eu queria mesmo era estar no meu quarto com todas as luzes apagadas ou, melhor, estar na Paulista, sem ele e com alguem me fazendo enxergar luzes no escuro. É por atitudes como essa do meu pai que essa época do ano é perigosa pra mim. É como se enfiassem uma pilha alcalina no rabo de todo mundo. Tudo fica maior, melhor e mais bonito e brilhante. O que, do meu ponto de vista, torna tudo mais chato, irritante, feioso e desengonçado. Será que ninguem ve que tudo fica fora do eixo nessa época? A atendente da padaria me falou bom dia e perguntou como eu estava? Desde quando ela se importa como eu estou ou deixo de estar? Afinal, nos outros 350 dias do ano o que importava pra ela era se eu ia levar cinco ou seis pães. Porque hoje ela quer saber como eu estou? Ah, é a porra do final de ano de novo. E não foi só ela, o dono da banca, o açougueiro, a moça no caixa do marcadinho da esquina, todo mundo resolveu se preocupar como eu estou. Hoje. Amanhã. Depois de amanhã, talvez. E depois? Nada. Todos ja fizeram o teatrinho do bom vizinho por alguns dias, ta na hora de colocar as coisas nos eixos de novo. Tá na hora de ser quem vocês são de verdade outra vez. Ta na hora de cada um se preocupar só com o seu umbigo de novo. E por falar em umbigo, lembrei da minha prima. É que ela usa a segunda pior coisa que uma mulher pode usar, na minha opnião. E usa pircing no umbigo. A primeira seria usar o pircing e ainda por cima usar baby look pra mostrar esse pircing. E ontem, eu estava conversando com ela, ou tentando, ja que o pircing a mostra tirava minha concentração e a unica coisa que eu conseguia pensar direito era sobre quantas diferentes maneiras eu conseguiria sugerir que ela cobrisse aquilo, pelo menos na minha presença e pelo fato dela ter 13 anos tambem. E, entre outras coisas, ela me disse estar ficando com um carinha. Carinha esse que tem 21 anos e que com certeza ja deve ter visto bem mais do que o pircing no umbigo dela. E ela disse estar ficando com esse carinha e essa frase ficou martelando na minha cabeça esses dias. Não por ela estar ficando com um carinha, até porque, por mim ela poderia dizer que estava trepando com o condominio inteiro dela que eu não nem ligar. Mas é que ela não é a primeira que disse estar ficando com alguem. E eu acho isso engraçado. Ficar. Com alguem. Porque tanta gente diz ficar com alguem mas são poucos o que realmente ficam. E quanto mais ficam, menos ficam. E é ficando com esse ou aquela que nada fica de verdade.