quinta-feira, 19 de março de 2009

Ao vento ...


Rever fotos ao som de uma trilha sonora tão familiar e nostalgica provavelmente foi a pior idéia que eu tive hoje. As sensações que esse exercício me traz ja deviam ter me feito aprender que eu não posso fazer isso frequentemente, mas escapou. E o vazio que me da, ver tantas coisas passando na minha frente, reviver tanta história em tão poucos segundos ... é demais para o meu coração. Agora eu vejo como faz falta o reflexo involuntario que era sorrir ao ver a cara de sono de cada um de vocês, da onde de felicidade que invadia meu ser com cada sorriso ou bom dia que eu recebia ao aparecer. Da leveza que era assistir o dia, a tarde e até a noite passarem se arrastando em frente aos nossos olhos. Sinto falta das vozes ao meu redor me fazendo sentir como se cada flanco meu estivesse protegido por cada um de vocês. Sinto falta de cada um de vocês como eu sentiria falta de um dos meus pulmões. Eu ja devia ter me acostumado, afinal o mundo nunca mais foi o mesmo desde que eu conheci vocês ...

O que sobra ...


Parece que foi ontem. É, foi ontem mesmo. Subir a rua de casa, chorando como sempre, afinal, eu não queria ir para escola. Não gostava, sei lá. Eu ja era bem grandinho para a minha idade, mas não poupava a minha mãe de me arrastar alguns metros na tentativa ínutil de tentar fazer o tempo passar e não dar tempo de chegar na escola. Coitado, mal sabia que esse era apenas a primeira vez de tantas seguintes que eu iria perceber que o tempo não pode ser parado. E eu continuei me arrastando pelo chão, fingia não saber amarrar o tênis, fazia birra e dizia que não queria comer e, em casos extremos, me trancava dentro do banheiro o maximo de tempo que eu conseguisse para poder atrasar o maximo a ida a escola. Mas como todas as tentivas, essas foram apenas mais uma das tantas outras frustadas. Lembro de como eu chorava a noite, abraçado a minha mãe dizendo que não queria crescer. Eu dizia que queria ser criança para sempre e olha que eu nem conhecia a história de Peter Pan. Dizia que queria continuar criança porque 'gente grande' não brincava. Achava gente grande chata, um verdadeiro poço de mau-humor e chatisse, sempre com seus horários cronometrados e seus compromissos a todo instante. Eu assistia aquilo com os olhos inocentes de uma criança de cinco anos e desde então eu não desejava aquilo para mim. Meu espírito ja nasceu livre, só não avisaram ele que toda liberdade tem seu fim. O tempo passou para mim, como passou para todos. Talvez mais lento, ou até mais rapido, mas passou. A vida esta esmurrando a minha porta agora. Chuta, berra, toca a campainha repetidas e insistentes vezes. A vida chegou até mim, porque eu sempre retardei o maximo que pude chegar a ela igualzinho como eu fazia quando não queria ir para escola. O tempo passa para todos, mais lento ou mais rapido, mas passa e com ele vão se os anos, a juventude, as alegrias prematuras, a infância, os primeiros amores e temores, as primeiras descobertas ... o tempo leva tudo, mas ja que para toda causa existe uma consequencia, o tempo leva com ele tudo isso, mas deixa algo conosco. Em troca de tantas coisas que ele leva, ele deixa a saudade e agora mora tanta saudade aqui ... Sobra tanta saudade do cheiro da lancheira, das músiquinhas que a tia do prézinho ensinava, de sentir-se a pessoa mais inteligente do mundo por conseguir escrever o alfabeto inteiro no caderno de caligrafia, de acordar cedo pela primeira vez, da primeira namorada, da primeira discussão, da primeira briga na escola, da primeira nota vermelha, da primeira recuperação, de sentar e ver a tarde passar devagar ... a saudade mora nas pequenas coisas e são essas pequenas coisas que fazem uma enorme diferença.