terça-feira, 20 de outubro de 2009

Quase

Eu estava sentado na sala, era cedo ainda, poucos alunos tinham chegado. Nem todas as luzes estavam acesas ainda, uma tentativa dessas poucas almas que chegam primeiro que todo mundo, de dormir o sono que lhes foi roubado quando o despertador tocou. E eu tambem era uma dessas pessoas que o despertador tinha roubado o sono. Mas, no meu caso, eu estava bem, mesmo tendo dormido trinta minutos contados no relógio. Eu estava sentado e acompanhava o desfile de caras amassadas e hálitos de café com leite. E essa cena se repetia com cada pessoa que entrava, até que depois de um intervalo, ela entrou. Ela tambem tinha a cara amassada e aparentava o mesmo halito de café com leite dos demais, mas tinha algo a mais nela. Ela é aquele tipo de menina que tem tudo para ser linda, mas... não é. Ela tem o olho claro, daquele tipo que meninas arrancariam os próprios olhos, se pudessem fazer uma troca, mas nela não fica bem. Ela tem o tom de pele do tom que mulheres gastam horas e dinheiro naquelas camas que mais parecem um forno pra assar gente e no fim não conseguem nada além de um pele com cor de tijolo, ou telha, ou sei la, mas nela não fica bem. Ela tem o cabelo liso que milhões de meninas ficam horas na frente do espelho, passando chapinha, na tentativa inutil de chegar o mais próximo daquilo mas o resultado sempre me lembra algo muito próximo da vassoura velha que minha vó usa pra lavar o quintal dela, mas nela, nela não fica bem. Ela é a menina que tem tudo para ser linda, mas não é. Ela é quase linda e quando eu acho alguem quase qualquer coisa, me da uma vontade de abraçar, e gritar e sair correndo tudo ao mesmo tempo. Meu lado sensivel supera meu lado agressor e eu quero abraçar ela. E não só ela. Quero abraçar a amiga dela que é quase nerd demais e tem um senso de moda bem questionável. Quero abraçar o menino que tem o cabelo quase brirando o mal gosto. Quero abraçar o outro menino que é quase gordo demais e quase não cabe na cadeira que ele esta sentado, ou o rapaz que esta sentado na ponta da fileira de cadeiras, mas ele, pensando bem, eu não quero abraçar não. Eu tenho quase certeza de que o cabelo dele não ve água ha pelo menos dois dias. E se tem algo que eu não suporto é gente que não toma banho e acha que desodorante resolve o problema. Mas eu tenho pena. Se quase qualquer coisa é pior do que não ser nada, por que uma vez quase qualquer coisa, você é quase qualquer coisa o resto da vida. A menina que é quase bonita nunca vai deixar de ser quase bonita, ela no maximo vai conseguir ser quase feia. É como montar um quebra cabeças de 5 milhões de peças e no final descobrir que esta faltando uma peça. Ser quase é o estado vegetativo de qualquer coisa. Não tem mais solução mas ainda esta ali pra te fazer lembrar o quanto dói. Eu ja quase deixei de amar, eu ja quase deixei partir, eu ja quase joguei as cartas fora, eu ja quase rasguei as fotos, eu ja quase liguei pra dizer que ja quase fiz tudo isso. Mas no final eu não fiz nada. Eu continuei alimentando sentimentos mortos, por preguiça de deixar minha vida andar pra frente. Minha anda tão estacionada que eu ainda hoje uso você pra falar de dor, mas hoje eu quero mudar, hoje eu quero que sejam eles, que sejam vocês. Que seja qualquer pessoa, menos eu. Porque eu quase sou tanta coisa mas ninguem quer me abraçar igual eu quero abraçar todo mundo. Eu sou o paciente em estado vegetativo que ninguem quer alimentar mas tambem não querem desligar os aparelhos. Vou ficar aqui e vou continuar sentindo pena da menina quase bonita e agora das piadas quase engraçadas do meu professor. E agora eu entendo que é a falta que completa as pessoas, porque que alguem que tem tudo, seja la o que for, fica com falta de espaço para ser apreciado. Então não adianta achar alguem completo, e sim, alguem que esteja faltando algo, pra você completar.