terça-feira, 24 de agosto de 2010

Sonho.

Ele tá te olhando. Minha amiga disse. Você ia achar que eu sou bonito se fosse ele? Respondi sem olhar para trás. Sim. Isso deveria ser o suficiente para garantir minha noite, eu achava ele bonito, talvez até um pouco mais que bonito. Ele vestia roupas moderninhas e distribuia sorrisos para desconhecidos enquanto caminhava pela rua. E eu tentando abrir um sorriso amarelo pra minha melhor amiga. Ele parece ser cheiroso e tem aquele olhar de menino que precisa de proteção e eu aqui, querendo defender alguém do mundo. Essa deve ser a terceira vez que o encontro naquele lugar. Ele sempre cumprimentando todo mundo e eu evitando abraçar semi-conhecidos. Mas e aí? O que pode acontecer? Ele nem deve saber da minha existência, e eu só sei o nome dele porque perguntei pra amiga da amiga da minha amiga. Comentei dele com as minhas amigas hoje e ontem e antes de ontem e começo a achar que elas estão ficando de saco cheio. Eu ficaria. E aí eu começo a pensar em tudo isso e acho que estou gostando dele, só um pouco, sabe? Aquela sensação de frio e calor ao mesmo tempo no do peito. E eu passo o dia inteiro pensando no que ele pode estar pensando. E então eu lembro que sonhei com ele antes mesmo de saber quem ele era e acho que é alguma obra do destino. Mas aí eu lembro que eu não acredito em destino e volta tudo no começo. Mas será que ele ia gostar de mim? Que tipo de pessoa gosta de alguém que fica tão próxima de si que não consegue se aproximar de mais ninguém? Mas então eu acho que posso mudar por ele. Ele merece. Eu acho. Eu posso tentar pelo menos. Isso, vou tentar. Vou tentar ser alguém melhor por ele, afinal, ele parece merecer. O que ele tem de diferente? Outra amiga perguntou. Nada. Eu respondi enquanto escutava a nossa música, porque eu já tenho uma música pra chamar de nossa. Então qual o motivo? Ela perguntou sem me entender, mas eu não ficava chateado, ninguém nunca me entendeu mesmo. Ele não é diferente de ninguém, mas é igual a mim. Eu respondo e sorrio. Porque falar dele me faz sorrir. E acho incrivel e triste eu achar que ele é igual a mim, afinal, ninguem merece ser igual a mim. Mas ele é, eu acho. Ele tem esse ar de quem achou que ia morrer de amor mas sobreviveu, e eu sei bem como é isso. Mas então uma outra amiga me pergunta do outro. Que outro? Eu respondo. Aquele outro, que você disse gostar também. Tinha me esquecido dele. E do outro e daquele outro também. Porque eu já me senti assim semana retrasada e no mês passado. Eu achei que poderia mudar por esses outros também, mas não mudei. É sempre assim, pegam na minha mão e eu já acho que estão colocando uma coleira em mim. Me abraçam e eu acho que estão prendendo minha liberdade e minha alma. E então eu corro, fujo, sumo, me escondo atrás da porta e nunca mais dou sinal de vida. Sabe como é, né? Minha avó dizia que gato escaldado tem medo de pingo, e a ultima vez que escaldaram meu coração foi o suficiente pelas próximas três encarnações. Mas é sempre assim, aparece um filho da puta do sorriso bonito e eu acho que dá pra aguentar mais um pouco, só por achar que ele tem potencial pra ser o marido que eu vou esperar enquanto cozinho. Mas não dá certo, ninguém teve sutileza o suficiente pra me tocar e arrepiar os pêlos da minha nuca sem me fazer querer correr pra casa e me trancar no quarto. Ou, no minímo, me fazer correr pra casa carregando ele junto. De todos eu fugi e nunca mais voltei. E se ele um dia ler isso? Minha amiga perguntou. Eu, provavelmente, já vou estar em outro país se isso acontecer. E se não estiver? Então ele é por ele que eu esperei a vida toda. Então eu olho no relógio, já tá tarde e eu tenho que acordar cedo amanhã, não posso esperar. Deito na cama e fecho os olhos e tenho o mesmo sonho das ultimas três semanas. Eu só sei amar de longe.